A GAIVOTA

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SÍNDROME DA ÁGUA
SÍNDROME DA ÁGUA
Os fatos que vou narrar aconteceram há muito tempo, sendo impossível fixar datas. Antes, porém, quero dizer que não se trata de medo do precioso líquido, ou qualquer outro tipo de restrição. Tomo, todo dia, meu banho matinal, após a caminhada habitual; frequento piscinas, somente respeitando onde “me dá pé”, e entro no mar até a água na altura da barriga.
Ali pelos anos 60, no segundo lustro, juntamente com alguns colegas advogados, fizemos um passeio ao Rio de Janeiro tendo como meio de transporte um navio que, naquele tempo, promovia essa viagem, pertencente Companhia Loyde Brasileiro. Chamava-se Imperatriz Leopoldina. Saía de Santos no começo da noite de sexta-feira, para aportar no Rio, pela manhã do sábado.
Não vou descrever maiores detalhes sobre a viagem, apenas relatar um fato que, até hoje, mexe comigo. Após a saída, estávamos reunidos no bar do navio, num “happy hour” que durou um prolongado tempo, diante daquela noite que começou maravilhosa, e se estendeu até o início da madrugada. Nessas alturas, a embarcação já estava em pleno alto mar, e preparávamos para nos dirigir às respectivas cabines, já com a dosagem alcoólica bem significativa. Não ia dirigir! Resolvi, então, eu e mais alguns colegas, dar uma olhada na paisagem. Fomos para o convés, e ficamos admirando a imensidão de água, que se perdia no horizonte, na escuridão da noite. Um deles, numa atitude tresloucada, chegou ameaçar subir no parapeito do navio, deixando-nos aflitos, com a possibilidade de sua queda na água. Isso somado, causou-me a sensação de quão ínfima é nossa presença, nossa pequenez, diante da grandeza do mar, imagem que ficou gravada em minha memória. Até hoje, quando estou em uma praia, ao olhar para o horizonte em direção à água, vem a mesma imagem daquela noite, causando-me certa angustia.
Já estive no pantanal mato-grossense algumas vezes. Confesso, de antemão, que nunca entrei num barco para pescar. Restringia-me a ficar na beira do rio, apreciando a paisagem, os pássaros, e pescando no barranco. Na primeira vez, ficamos em Coxim, na beira do Rio Taquari, num local conhecido como Cachoeira das Palmeiras. De uma beleza deslumbrante. Logo no primeiro dia, alguns companheiros de viagem, todos amigos de longa data, vieram dizendo que, onde se formava a piscina na queda da cachoeira, dava pé para a travessia do rio, e do outro lado, formava-se uma lagoa, onde havia inúmeros peixes de bom tamanho. Iludido, e marinheiro de primeira viagem, entrei no grupo que faria a travessia, sem qualquer tipo de proteção nos pés. Nem bem chegado a um terço da caminhada, não aguentei, pois, o que é normal, o leito do rio era tomado por pedras, que começaram a machucar meus pés. Ainda bem que, no local, não havia correnteza d’água, e pude, a nado cachorrinho, voltar para a margem. O Luiz Oliva, velho amigo, gozador, não perdeu tempo, colocou-me o apelido de capivara, e, até hoje, assim me chama. Ainda agora, quando me recordo, vem um frio na barriga, ao pensar do risco que passei, com a possibilidade de haver piranha naquelas águas, ou ser levado pela correnteza.
Deus me livre!
Aristeu Fatal
Enviado por Aristeu Fatal em 16/02/2015


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