A GAIVOTA

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EXTRATERRESTRES
EXTRATERRESTRES (*)

“Alô, Alô marciano,
Aqui quem fala é da terra” (Elis)

As noites naquele pequeno povoado da região amazônica vinham sendo um terror para seus pobres habitantes. Além das dificuldades próprias de um lugarejo afastado, lá nos confins paraenses, não havia nada daquilo que na capital existia, como televisão, telefone celular, e outras modernidades. Nem energia elétrica. Só mesmo a floresta e o verdadeiro mar de água doce, o Rio Amazonas. Deste vinha o sustento, por sua variada espécie de peixes. Daquela, a caça e as frutas próprias da mata. A cada quinze dias aparecia o barco trazendo o padre, o médico e os principais gêneros alimentícios que complementavam a mesa daquela gente.
Major Nunes, reformado do exército, escolheu esse lugar para morar. Deixou tudo para trás. A família, os amigos e a vida boa que um aposentado elege para curtir o resto de sua existência aqui na terra.
- Você está louco! Todos diziam.
Havia conhecido Tabajara, o nome do lugar, quando servira no Batalhão de Fronteira da Amazônia, por volta dos anos setenta. Tinha quarenta e cinco anos de idade. A floresta, o rio, a fauna, a simplicidade do povo, tudo ficara marcado em sua memória. Era ali que iria passar seus últimos dias. Nem que fosse sozinho.
Sendo ali apenas um distrito, ele se tornara uma espécie de subprefeito.
- Major, será que hoje eles vão aparecer? Era a pergunta que mais ouvia, diariamente.
- Fiquem tranquilos! Haveremos de dar um jeito nessa situação. Muito constrangedor para ele, encarar o sentimento de medo daquela gente, e a sua impotência em não conseguir aplacar o desespero dos habitantes do lugar.
À noite eles apareciam! Em número de cinco ou seis. Cena apavorante. Eram enormes objetos em forma de discos, de um material idêntico ao aço, que sobrevoavam o povoado, a não mais do que cem metros de altura. Deles, em aberturas circulares, que ficavam em todo o contorno da nave, saíam fachos de luzes intensos, tamanha a claridade, que iluminavam o local, deixando Tabajara como se fosse dia. O mais interessante, era que essas luzes perseguiam aqueles que corriam delas, e mesmo diante da tentativa de se protegerem em suas casas, não adiantava, pois, eram igualmente atingidos pelos raios emitidos, que ultrapassavam as coberturas, se bem que de sapé.
- Se esconde Zequinha! Gritava Palmira, empregada do major, querendo proteger o filho.
E deixavam na pele, bolhas que se transformavam em feridas. De coloração verde escura. Horríveis! Examinadas pelo médico, não tinha ele qualquer explicação para o tipo de lesão. Nem mesmo quando submetidas ao exame de laboratório, na capital.
Esses episódios aconteciam uma ou duas vezes por semana. A população vivia em sobressalto. De nada adiantavam as inúmeras rezas promovidas na igrejinha da corruptela. São Benedito, padroeiro do lugar, por mais invocado que fosse nas novenas e ladainhas, não conseguia amenizar o sofrimento de seus adeptos.
As autoridades tanto municipais, como estaduais não ligaram para o assunto.
- Crendices do povo, diziam.
Não suportando mais esse estado de coisas, o Major Nunes se dirigiu a Brasília, indo conversar com o Ministro da Defesa. Recebido, este mal ouviu suas alegações não dando a mínima atenção ao relato do denunciante.
Esteve no Rio de Janeiro. Da mesma forma, o Estado Maior das Forças Armadas mal o atendeu. Viu-se completamente desacreditado.
Voltou desanimado para Tabajara.
Dias depois, não suportando mais ver o desespero daquele humilde povo, não teve outra saída.
Não tendo como lutar, cometeu o suicídio! Um tiro na boca acabou com seu sofrimento.

(*) Conto baseado em noticiário de jornal
Aristeu Fatal
Enviado por Aristeu Fatal em 16/11/2014


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