A GAIVOTA

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                                        VOCÊ TEM GALOCHA?

Casa Veronesi. Sua idade, realmente, não sei afirmar. Aliás, nem o próprio Irineu sabe!
Todavia, segundo ele, deve ter mais de 80 anos. Sem dúvida, se não é a mais, trata-se de uma das lojas mais antigas de Santo André. Sempre no mesmo local, na rua Senador Flaquer, onde, também, era a residência da família. Seu pai, o fundador, faleceu em 1956, quando apenas era uma sapataria. Desde então, o Irineu Veronesi passou a comandá-la. Tinha por volta de 20 anos, se tanto. Contava com a ajuda de um irmão mais novo.
Aos poucos foi modificando o tipo de comércio, mudando para artigos do vestuário masculino em geral, inclusive mantendo sapatos. Mas, a prioridade era a moda.
Ainda que tendo formação superior, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, turma de 1980, o Irineu jamais poderia exercer outra atividade, a não ser a de comerciante. Bom papo, simpático, não somente herdou a clientela de seu pai, como, no correr dos anos, a ampliou significativamente. Hoje, atende grande parte dos antigos moradores de Santo André, além de seus descendentes.
A grande qualidade do Irineu, como já disse, é saber agradar a clientela, através de sua simpatia, e de uma boa conversa. Nascido e criado naquele local, e dono de uma memória de fazer inveja a todos, sempre tem uma história ou um caso para contar. Conhece meio mundo. Basta mencionar determinado nome, já vem ele narrando um fato curioso sobre a pessoa.
A Senador Flaquer, situada no centro da cidade, conhecida agora como a “rua dos bancos”, nos tempos antigos era um local de concentração de grande parte das atividades de lazer da população. Principalmente, em seus dois primeiros quarteirões. Ali, ficava o velho Cine Carlos Gomes, durante muitos anos o principal cinema da cidade. Ele, lá pelos anos 30, 40 do século passado, era palco dos bailes carnavalescos do Clube Atlético Rhodia, frequentado pela sociedade andreense. Tempos do lança-perfume. Hoje, semidestruído, tombado pelo patrimônio histórico, pertence à Municipalidade, e passa por uma reforma que dura mais do que a “Sé de Braga”. Em sua frente, na calçada do Restaurante Balderi, aconteciam os famosos “vai e vem”, desfile das beldades, para o deleite dos rapazes. Possuía muitos terrenos vazios, espaçosos, que, durante grande parte do ano, eram ocupados por parques de diversões, e circos.
E, fazendo parte dessa vizinhança, bem ali, estava a Casa Veronesi. Nessa paisagem, o menino Irineu cresceu, vivenciando e sendo testemunha de centenas e centenas de acontecimentos, que a sua memória privilegiada, guarda como verdadeiro repositório de grande parte da história de Santo André.
Volta e meia, passo pela Senador Flaquer, e faço questão de bater um papo com o Irineu. Sempre fico sabendo de algumas novidades, e de umas histórias que ele tem para contar. É difícil estar sozinho. Invariavelmente, com duas ou mais pessoas. Trata-se de um ponto de encontro para muita gente.
Não deixo de lhe fazer a pergunta:
- Você tem galocha para vender?
 
Aristeu Fatal
Enviado por Aristeu Fatal em 26/10/2013
Alterado em 26/10/2013


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