A GAIVOTA

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AVES, PORUNGAS E POLUIÇÃO
   AVES, PORUNGAS E POLUIÇÃO
“As andorinhas voltaram
  Eu também voltei...)
(Cancioneiro sertanejo)

Quem vive nesta cidade de Santo André há mais de 70 anos, pode confirmar que digo a verdade. Nos anos 40 do século passado, ela era bem típica interiorana, possuindo um dos climas mais puros do Brasil. Não estou exagerando. Prova disso, eram os inúmeros moradores de Santos que aqui tinham propriedade, para passar o verão. E, também, quantas e quantas pessoas, portadoras de tuberculose, procuravam o planalto de João Ramalho, a fim de curar a doença, terrível naquela época.
Digo mais. Nosso território, onde se multiplicava o número de chácaras, onde quase todas as casas possuíam quintais com pomares bem diversificados, se constituía numa convidativa mesa para as aves, que aqui vinham atraídas pelo opíparo e variado cardápio.
Então, além da grande quantidade de pardais, sempre uma praga, nossos ares eram povoados por dezenas de espécies de aves, onde era comum a presença dos coleirinhas, dos sabiás, dos bem-te-vis, dos sanhaços, dos periquitos. Raras as residências em que não havia uma gaiola com o canário, o vira, o avinhado ou um cardeal. E quantas possuíam seu viveiro, o cortiço de passarinhos. A cidade inteira recebia esses alegres visitantes.
Uma das ocupações mais preferidas pela meninada, com idade pouco acima da minha, era caçar passarinhos. Levava a sua ave numa gaiola, para atrair a outra através do canto, juntamente com o alçapão, que servia de arma para prendê-la. Apesar de tantas opções de locais para a caça, os preferidos ficavam depois da linha do trem, lá pelos lados do atual bairro Camilópolis, e os campos onde, hoje, está o Hospital Mário Covas. Sempre que lá iam os amigos, voltavam eles trazendo cabaças, provenientes de vegetação rasteira, como uma abóbora, e que muitos usavam como recipiente de água. Essas cabaças eram chamadas “porungas”. O primeiro local que acabei de situar, também foi usado como campo de pouso e decolagem de avião, uma espécie de aeroporto improvisado. Isto é, Santo André teve, também, um dia, seu aeroporto. Quem falou que não!
Inclusive, no Cemitério da Saudade, há o túmulo do aviador Natalino Carifi, morto em 24/10/1940 em acidente de avião. Esse túmulo tinha, ao ar livre, a hélice da aeronave, mas, por ser de madeira, o tempo se encarregou de deteriorá-la, não estando mais lá.
Entretanto, a Santo André era reservado um outro destino.
Sua vocação era bem outra.
A partir dos anos 50, as indústrias começaram aqui se instalar, principalmente, no corredor da Avenida Industrial, por causa da via férrea. O crescimento industrial foi tão intenso, que aquela pacata cidade foi se desenvolvendo, e sem as devidas precauções relativas à qualidade do ar. Indústrias químicas, fábricas de adubos e outras altamente poluidoras, contribuíram para tornar o ar de Santo André irrespirável. O que se viu foi, então, uma debandada geral dos passarinhos. Lembro-me, perfeitamente, que durante uns 20 anos não mais se constatou a presença de aves, a não ser pardais.
Até que, pela metade dos anos 60, inclusive tendo um andreense entre seus fundadores, foi criado um órgão destinado ao controle da poluição das águas e do ar, aqui na região. Refiro-me ao ex-Prefeito Engenheiro Antonio Pezzolo e à CICPAA, Comissão Intermunicipal de Controle das Águas e do Ar. Pois bem, essa entidade exerceu suas funções com rigor e seriedade tão manifesta que, após alguns anos, a situação melhorou muito. Atualmente, esse órgão foi encampado pela CETESB.
Hoje, já podemos ver, novamente, a cidade repleta dos sabiás, rolinhas, bem-te-vis, coleirinhas, periquitos e outras espécies de aves que haviam desaparecido e que tanta falta fizeram.
Ainda bem!
“vola, colomba bianca vola...
  Diglielo, tu, que torneró...

  Dile che non sara piú sola
  E che mai più la lascierò...”
     (Concina-Cherubini)
Aristeu Fatal
Enviado por Aristeu Fatal em 12/06/2012


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