A GAIVOTA

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ITALIANÍSSIMO
                               ITALIANÍSSIMO


Ele se chamava Aladino. Sogro de minha cunhada Maria do Carmo, casada com o Duílio. Um homem formidável. Veio para o Brasil ainda moço, casou-se com Dona Lídia. Foi comerciante em Santo André e em São Paulo, com armazém e padaria. Mais tarde, lenheiro, isto é, vendia lenha para restaurantes, a maioria pizzaria. Como gostava de um vinho.
Tinha mais três filhos, Alberto, Marisa, casada com o Homero, e Aladino Jr. casado com Vânia.
Após meu casamento, durante muito tempo passamos o final de ano em sua residência, almoçando as delícias elaboradas pela Dona Lídia. Além de outras festas. Sempre estava com os bolsos do paletó, do qual jamais abria a mão, cheios de balas, chocolates, para a alegria da criançada. Lembrava-me o Totó, célebre ator italiano, comediante, não na aparência, mas nas atitudes. Inesquecível a cena de um filme antigo, em que ele (Totó), numa região de montanhas da Itália, na divisa com a França, contrabandeava vinho em galões. Pego pela guarda alfandegária, disse que levava água. O guarda, duvidando, abriu um galão, e exclamou:- È vino! Ao que ele começou a gritar:- Miracolo! Miracolo!
Sempre, nas ocasiões festivas, Seu Aladino transbordava de alegria, chegando em casa para o almoço, vindo do Bar do Cebola, onde com os amigos, tomava seus vinhos e jogava sueca. Geralmente, muito expansivo, costumava subir à mesa, após o almoço, para cantar e dançar as mais belas canções napolitanas. Aí a festa pegava fogo, com todos o acompanhando ao redor da mesa, cantando “quel mazzolin di fiore”, “Mamma”, “ Funiculi, funiculà” e tantas outras.
Dotado de um espírito destemido, desbravador, seu dia a dia era passado em Ribeirão Pires, no interior das matas, onde através de caboclos, todos contratados para tanto, carregavam os caminhões de lenha. Mais de uma vez fui com ele, em sua Rural Willys, no domingo pela manhã, percorrer os locais de corte de eucaliptos. Entrava por estradinhas que somente ele conhecia, chegando em determinados pontos, para encontrar os homens que trabalhavam para ele, geralmente sentados perto de onde havia uma vendinha. Então, descia do veículo, e com um maço de notas na mão, ia pagando um a um, sem qualquer tipo de controle, ou de recibo.
Tinha um círculo de amigos inseparável. Todos apreciadores do vinho.
Certa ocasião, num sábado, como sempre, após almoçarem lá pelos lados de Ouro Fino, distrito de Ribeirão Pires, voltavam para Santo André, já no fim da tarde. Naquele dia, estava marcada a missa de sétimo dia pelo falecimento de um conhecido. Igreja de Santa Cruz, na Avenida Dom Pedro I, esquina com a Avenida Santos Dumont. Entraram já com a missa em andamento, postando-se todos no fundo da igreja. Em determinado momento, o padre suspendeu a celebração, a fim de o coro cantar um hino. Seu Aladino, então, colocando uma das mãos em forma de concha, na  axila do outro braço, cotovelo dobrado e em movimento para baixo, concatenado com um som saído da boca, imitava um trombone. A surpresa foi geral. Todos os fiéis viraram-se para ver o que acontecia, com muitos não conseguindo reprimir as risadas. Não teve outro jeito. O celebrante foi obrigado a expulsá-lo do templo.
No dia seguinte, fomos almoçar na casa de seu filho Duílio, quando, então, ele próprio nos contou a proeza que cometera.
Seu Aladino, sem dúvida, está no melhor dos lugares, reservado para aqueles que, aqui na terra, só fizeram o bem! Certamente, de paletó, com os bolsos cheios de balas, chocolates e tudo aquilo que faz a felicidade dos anjos!
Imitando o trombone, claro!

Aristeu Fatal
Enviado por Aristeu Fatal em 11/05/2012


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